Mês: Março 2018

O Problema com os Problemas

“Foca 90% do teu tempo em soluções e apenas 10% do teu tempo em problemas.” 

Anthony J. D’Angelo

Durante a corrida ao espaço entre os Estados Unidos da América e a Rússia, reza a história que existiu um problema com o facto dos astronautas não conseguirem escrever no espaço utilizando canetas, pois a tinta não funcionava num ambiente sem gravidade. A NASA focou-se no problema da tinta e investiu vários anos e milhões de dólares, até conseguir uma caneta que funcionava num ambiente sem gravidade e em qualquer superfície. A Rússia, por outro lado, focou-se na solução e substituiu a caneta por um lápis.

Esta história tem muitas versões e alguns consideram um mito, mas a mensagem implícita não deixa de ser importante: se nos focarmos apenas no problema, vamos tirar foco à solução, prejudicando o resultado final.

O problema com os problemas é que ficamos a pensar no problema e isso não nos ajuda a resolvê-lo. Quanto mais tempo passamos com o problema, menos tempo vamos pensar na solução.

Existe uma diferença entre focarmo-nos no problema ou focarmo-nos na solução. Primeiro, quando nos focamos na solução, preparamos o cérebro para receber informação relevante para o resultado que queremos, em vez de focarmo-nos na informação sobre o problema.

Vamos imaginar que saímos tarde de uma formação e precisamos de apanhar um táxi para ir para o aeroporto. Como já saímos tarde, o voo está próximo e podemos perdê-lo se não nos despacharmos. Se sairmos para a rua e pensarmos no problema (não chegar ao aeroporto a tempo), estamos a programar o nosso cérebro para procurar informação sobre o não chegar ao aeroporto, vendo mais coisas que nos incomodem e aumentando o nosso stress. Se, por outro lado, pensarmos na solução (apanhar um táxi), o nosso cérebro vai estar à procura de informação que nos ajude a apanhar um táxi. Vai detectar mais táxis na proximidade, pensar se existe ou não uma praça de táxis, pensar noutras soluções, como ligar para a central ou pedir a alguém da zona que nos indique onde podemos apanhar um táxi.

Outro problema em focarmo-nos no problema, é que muitas pessoas dizem que podem estar a pensar no problema e na solução em simultâneo, utilizando o multitasking. Mas, embora o multitasking seja um termo muito falado, vários estudos têm mostrado que o mesmo tende a ser ineficiente, a não ser em situações muito específicas. Isto acontece porque o nosso cérebro é monofocal e não multifocal. Ou seja, pode parecer que temos vários focos ativos ao mesmo tempo, mas o que temos é um foco a mudar rapidamente entre situações. Apenas em situações em que sejam feitas atividades que recorram a áreas diferentes, tais como mexer num objeto, enquanto pensamos noutra coisa, é que diferentes regiões cerebrais geram atividade em simultâneo. No entanto, mesmo nessas condições, o que os estudos imagiológicos têm vindo a demonstrar é que a área total das regiões cerebrais ativadas durante esse multitasking, é inferior às regiões cerebrais de cada atividade somada de forma individual. Então, nunca utilizamos os recursos em pleno dessa forma.

Isto significa que se estivermos focados no nosso problema, vamos ver menos a solução, aumentando o nosso problema.

Adicionalmente, quando nos focamos no problema, vamos estar a ativar emoções conectadas a esse problema, que vai gerar mais ruído no cérebro, impedindo-nos de dar a clareza cognitiva que precisamos. Se nos focarmos na solução, geramos uma resposta emocional mais propensa à ação, a queremos executar algo. É um estado de proximidade em vez de afastamento, fazendo com que aumente os níveis de dopamina, a hormona da motivação e que também nos ajuda na nossa aprendizagem.

Na vida pessoal e profissional, os problemas surgem normalmente. Mas se ficarmos a olhar para eles, perdemos a nossa capacidade de pensamento crítico e de procura de soluções. É necessário mudarmos o foco e concentrarmo-nos na solução. O nosso cérebro reage às palavras que dizemos, pelo que muitas pessoas optam por redefinir a palavra “problema” em “desafio”. Se dissermos “isto é um problema”, podemos verificar que reagimos automaticamente de forma diferente do que quando dizemos “isto é um desafio”. Nós gostamos de desafios, mas de problemas, nem tanto.

Então, para conseguirmos tomar melhores decisões e tornarmos-nos mais resilientes perante os problemas/desafios, devemos seguir os seguintes passos:

  1. Olhar para o problema/desafio para identificá-lo
  2. De seguida, mudar o foco na procura da solução. Desta forma, vamos ter um estado emocional muito mais benéfico  e o nosso cérebro vai estar ativamente à procura de informação no meio, que nos ajude a obter o resultado que queremos.

O Efeito do Meio na Nossa Genética

Há algumas décadas atrás, pensava-se que a genética determinava totalmente a nossa forma de ser, estar, a nossa personalidade e os resultados que iriamos ter na vida. Entretanto, surgiram outras correntes de pensamento que diziam que era o meio que ditava como nos iriamos tornar. Diziam que nascíamos como uma tábua rasa, uma tábua em branco, sem qualquer informação e que aprendíamos tudo com a nossa interação com o meio.

Esta luta de ideias deu historicamente o debate entre a genética e o meio. Só a partir de década de 90, com recurso a ferramentas imagiológicas que permitiram analisar a atividade do cérebro e com novos estudos experimentais, a resposta apareceu.

A genética tem um peso e influencia como nos iremos tornar. Mas, não determina. O meio em que estamos inseridos e as nossas experiências passadas têm um peso determinante no resultado da nossa vida.

O que a ciência descobriu recentemente é que a mera presença de um gene não é suficiente para determinar se iremos ter aquele traço ou não. Um gene também tem que ser ligado ou desligado. Estudos feitos têm vindo a mostrar que as experiências que temos podem ligar ou desligar genes. Ou seja, naquela dicotomia da genética contra o meio, verificamos que o meio pode agir sobre a genética.

Dependendo das experiências que uma criança tenha, a base genética da timidez ou agressão pode ou não ser manifestada. O nosso DNA é como uma coleção de música. Podemos ter músicas que não gostamos na nossa coleção, mas a música que ouvimos depende da música que é tocada.

 

No início de 1990, Michael Meaney, especialista em biologia e neurologia, descobriu algo muito interessante com ratos, que serviu de resposta para este debate da genética contra o meio.

Como os ratos neuróticos e ansiosos tinham filhos também neuróticos e ansiosos, pensava-se que a ansiedade e o neuroticismo eram genéticos, hereditários e fixos. E como os ratos calmos tinham filhos calmos, pensava-se que esse traço também era genético, hereditário e fixo. Mas Meaney, era céptico quanto a esta ideia e quis testá-la.

Meaney colocou os ratos fêmeas que eram ansiosos e neuróticos junto das crias de ratos calmos e colocou os ratos fêmeas que eram calmos junto das crias de ratos ansiosos e neuróticos.

Uma das grandes diferenças entre estas mães, é que aquelas que eram calmas, davam muito mais carinho às crias e lambiam-nas muito mais, como gesto de afeto e de reconforto, enquanto as mães ansiosas e neuróticas não faziam isso.

 

O que aconteceu foi que as crias de ratos neuróticos e ansiosos, mas que foram colocados junto de mães calmas, tornaram-se calmos e curiosos, explorando o meio à sua volta. Por outro lado, as crias de ratos calmos, mas que foram colocados junto de mães neuróticas e ansiosas, ficaram mais ansiosos, hipersensíveis a qualquer som ou gesto e com mais stress.

O que Meaney e os seus colegas descobriram foi que os genes eram expressos pelas experiências de vida iniciais.

O facto do meio influenciar a genética não acontece apenas com ratos. Meaney fez outro estudo, analisando amostras de 36 cérebros: 1/3 de pessoas que se tinham suicidado e sofrido abusos em crianças, 1/3 de pessoas que se suicidaram mas não foram abusadas e 1/3 de pessoas que não se suicidaram.

Ele descobriu que as pessoas que tinham sofrido abuso em crianças e que tiraram a sua vida, tinham o gene responsável pelo sistema de resposta ao stress, desligado, fazendo extremamente difícil de lidarem com as adversidades da vida. A atividade anormal no sistema de resposta ao stress tende a estar ligada ao suicídio. Com esta descoberta feita em 2009, Meaney completou a sua ideia. O abuso que as pessoas sofreram em crianças, ou seja, o efeito do meio, alterou a expressão de genes no cérebro, que prejudicou a capacidade de lidarem com a adversidade, levando a estas pessoas mais vulneráveis ao suicídio.

 

Embora possamos ter uma genética propensa à ansiedade, se formos criados num ambiente carinhoso, seguro, reconfortante e que nos dê ferramentas para lidar com a ansiedade, pode silenciar esse gene e prevenir que tenha um efeito no cérebro e no nosso comportamento.

Então Meaney mostrou que não podemos estar sempre a culpabilizar a nossa genética, a dizer que somos como somos, porque já o meu pai era. O meio influencia de forma determinante na forma como os nossos genes vão ser expressos.

No entanto, podemos ter sido criados numa situação em que o meio não foi o mais seguro e carinhoso. Então, será que isso significa que o nosso destino está traçado? Que a forma como somos criados em criança vai definir a nossa vida? Não. Embora tenha um peso muito forte, o nosso cérebro continua a formar novas ligações neurológicas ao longo da nossa vida, conseguindo então mudar padrões e processos de aprendizagem. A este processo dá-se o nome de neuroplasticidade.

Como tínhamos indicado no início deste artigo, o que devemos reter é que a genética influencia-nos, mas não determina o resultado da nossa vida. As experiências do nosso dia-a-dia, desde da infância e durante a fase adulta, vão ter um impacto muito forte em moldar a nossa forma estar no mundo e como vamos reagir às situações do dia-a-dia.

#3 Desafio 2018 – Exercício Físico

Chegamos ao mês de Março e é tempo de lançarmos o nosso 3º desafio mensal!

Os outros dois desafios foram os seguintes:

Este mês o desafio não é sobre uma categoria específica da  Inteligência Emocional, mas sobre algo que também impacta (e muito) a nossa capacidade de gerir emoções. O desafio deste mês é o Exercício Físico.

O exercício físico tem benefícios tremendos na nossa capacidade cognitiva, motora e bem-estar. O nosso foco e memória melhora com a prática de exercício físico. Na Holanda, estudantes que praticaram exercício físico aeróbico durante períodos diários de 20 minutos, melhoraram a sua capacidade de atenção.

Num estudo publicado no Journal of Alzheimer’s Disease, Ozioma Okonkwo, professor assistente de medicina na Universidade de  Wisconsin, seguiu 93 adultos que tinham pelo menos um familiar com a doença de Alzheimer, um gene ligado ao Alzheimer ou ambos. As pessoas no estudo que passaram no mínimo 68 minutos por dia fazendo exercício físico moderado, mostravam sinais de um cérebro mais saudável, comparado aos que não faziam exercício físico. Além de ajudar a prevenir doenças, Okonkwo também mostrou que as pessoas que praticam exercício físico, têm um maior volume cerebral em regiões associadas ao raciocínio e função executiva. Uma prova forte que a prática de exercício físico é um parceiro forte da Inteligência Emocional.

Para termos uma correta gestão das nossas emoções, precisamos de ter as nossas capacidades cognitivas com o melhor desempenho possível e a prática de exercício físico melhora essas capacidades.

O exercício físico pode ser aeróbico ou de resistência. Os estudos incidem mais sobre o exercício aeróbico, que é o que tende a apresentar melhores benefícios no geral. No entanto, os especialistas indicam que a mistura entre ambos é a melhor opção.

Existem várias formas de praticar exercício físico, desde caminhadas, natação, aulas em grupo, entre outras. Este mês, para facilitar este processo, recomendamos que analises o teu dia-a-dia e penses onde podes aumentar a prática de exercício físico, inserindo-a no teu quotidiano, sem requerer um esforço adicional. Se trabalhas ou vives num prédio, tenta utilizar mais as escadas. Se vais a pé para o trabalho, tenta um percurso alternativo maior. No almoço, dá uma caminhada após a refeição. Utiliza alternativas que te façam aumentar a atividade física em alguns minutos. Desta forma, fazemos uma mudança quase imperceptível mas conseguimos sentir alguns resultados.

Bom treino!

 

 

Subscreva a newsletter

Para receber todas as novidades em primeira mão…