Mês: Outubro 2018

A Ilusão de Controlo

A ilusão de controlo é a tendência para os seres humanos acreditarem que conseguem controlar, ou pelo menos, influenciar o resultado de algo, que aparentemente não têm qualquer influência.

Ellen Langer, professora de psicologia da Universidade de Harvard, tem estudado esta ilusão de controlo, principalmente na tomada de decisão.

Numa série de experiências, Langer demonstrou que existe esta ilusão de controlo pela parte do ser humano, e que, os indivíduos têm mais probabilidade de se comportar como se tivessem real controlo sobre uma situação, quando existem “pistas de habilidades”. Langer dá o nome de “pistas de habilidades”, quando existe algum tipo de controlo ou de aplicação de habilidades do individuo, familiaridade com o estímulo ou envolvimento na decisão. Por exemplo, uma forma simples deste efeito pode ser vista nos casinos, quando os apostadores estão a rolar dados. Quando querem que saiam números maiores, tendem a atirar com mais força e quando querem que saiam números pequenos, tendem a atirar de forma mais leve e cuidada. Não existe qualquer diferença real no resultado, mas o indivíduo sente que aplicou alguma habilidade naquele jogo de sorte, ganhando uma ilusão de maior controlo sobre o resultado final.

Num dos estudos de Langer, em 1973, foram vendidos bilhetes de lotaria a vários indivíduos. A um dos grupos, foi dada a opção de poder escolher o bilhete, enquanto ao outro grupo, cada indivíduo recebia um bilhete aleatório, sem poder escolher os números. Os bilhetes valiam $1,00 e o prémio era de $50,00. Posteriormente, um dos confederados do estudo perguntou por quanto é que venderiam o seu bilhete. Dos 53 indivíduos que tinham comprado o bilhete, 15 deles inicialmente recusaram-se a vender bilhetes. Destes 15 indivíduos, 10 estavam no grupo que podia exercer a escolha do bilhete. Depois, quando foram pedidos os valores que estariam dispostos a vender, o valor médio do grupo que escolheu os bilhetes, foi de $8,67, enquanto que o valor médio do grupo que não teve escolha sobre os bilhetes, foi de $1,96.

Este estudo mostrou que embora o resultado fosse completamente aleatório, aqueles que puderam escolher o seu bilhete, tendo alguma ilusão de controlo, estavam menos recetivos a vender os seus bilhetes ou venderiam por um preço muito superior aqueles que não tiveram qualquer escolha sobre o seu bilhete.

Embora esta ilusão de controlo possa ser falaciosa e fazer-nos arriscar mais de forma não racional, também pode ser benéfica para nós, nomeadamente na capacidade de lidarmos com o stress.

A maioria dos estudos descobriu que a perceção de controlo que experienciamos (e não o controlo real), é um dos determinantes primários de como reagimos perante eventos aversivos (Glass, Reim, & Singer, 1971).

Por exemplo, numa série de estudos, colocaram participantes expostos a estímulos aversivos e incontroláveis, desde barulhos até choques ligeiros. Estes estímulos fizeram com que os participantes ficassem mais tensos, reduziu a sua tolerância à frustração e inibiu o seu desempenho em tarefas apresentadas posteriormente. No entanto, quando os participantes percecionavam algum controlo sobre os estímulos aversivos, estes efeitos negativos diminuíam. Os investigadores manipularam o controlo percecionado, dando a alguns participantes a opção de parar os estímulos durante alguns segundos. No entanto, ao mesmo tempo foi pedido que tentassem não o fazer. Os participantes que tiveram esta opção e que seguiram as ordens dos investigadores, experienciaram menos stress, pois acreditavam ter controlo sobre a situação (Glass et al., 1971; Glass & Singer, 1973; Glass et al., 1969; Reim et al., 1971).

Então, a ilusão de controlo pode ser prejudicial, pois nas situações em que não temos qualquer influência, podemos sentir um controlo irreal fazendo com que tomemos decisões mais arriscadas e precipitadas. Por outro lado, esta ilusão pode-nos ajudar muito em situações adversas, em que termos alguma perceção de controlo, ajuda-nos a lidar melhor com a situação e a experienciar menos stress.

O importante é termos conhecimento que esta ilusão de controlo existe e fazer uso dela da melhor forma, sempre que possível.

 


Referências bibliográficas

Glass, D.C., Reim, B., & Singer, J.E. (1971). Behavioral consequences of adaptation to controllable and uncontrollable noise. Journal of Experimental Social Psychology, 7, 244-257.

Glass, D.C., & Singer, J.E. (1973). Experimental studies of uncontrollable and unpredictable noise. Representative Research in Psychology, 4, 165-183.

Glass, D.C., Singer, J.E., & Friedman, L.N. (1969). Psychic cost of adaptation to an environmental stressor. Journal of Personality and Social Psychology, 12, 200-210.

Reim, B., Glass, D.C., & Singer, J.E. (1971). Behavior consequences of exposure to uncontrollable and unpredictable noise. Journal of Applied Social Psychology, 1, 44-56.

#10 Desafio 2018 – Expressão Emocional

Estamos em Outubro, altura de lançar o 10º desafio do ano!

No mês passado, tivemos um desafio sobre o Descanso, que embora não seja uma competência emocional, traz um enorme impacto na forma como gerimos as nossas emoções e desenvolvemos a nossa Inteligência Emocional.

Este mês, vamos treinar uma competência emocional necessária para uma melhor comunicação, que é a Expressão Emocional.

Vamos recordar os desafios mensais dos últimos 9 meses:

A Expressão Emocional refere-se a como uma pessoa expressa a sua experiência emocional através de comportamentos verbais e não verbais. A expressão emocional é distinta da experiência emocional, pois é possível experienciar emoções sem as comunicar.

Saber expressar emoções é uma componente importante da regulação emocional, trazendo impacto na nossa saúde. Além da nossa saúde, as emoções transportam mensagens e a forma como entregamos essa mensagem, vai ter um efeito enorme na forma como construímos as nossas relações.

Este mês vamos treinar uma forma de expressar emoções, indicando um dos erros mais comuns que os indivíduos fazem quando querem partilhar aquilo que estão a sentir. E que erro é esse?

Um dos maiores erros é dizermos “Tu fazes-me sentir…” em vez de “Eu sinto-me…”. 

À primeira vista, podemos pensar que a frase “Tu fazes-me sentir…” está correcta. Vamos indicar três motivos que explicam porque é que é melhor dizer “Eu sinto-me…” e o impacto negativo que “Tu fazes-me sentir…” faz à relação.

#1 Motivo – “Tu fazes-me sentir…” transmite uma acusação. 

Lê as duas frases:

  • “Sinto-me triste”, “Sinto-me irritado”
  • “Tu fazes-me sentir triste”, “Tu fazes-me sentir irritado”

Imagina que te dizem a frase de cima ou a frase de baixo. Lê mais do que uma vez. Notas a diferença? Nas frases de baixo, sentimos um tom acusatório e isso leva a que nos defendamos e ataquemos de volta.

#2 Motivo – “Tu fazes-me sentir…” é uma forma de desresponsabilização.

Além de transmitirmos um tom acusatório à outra pessoa, fazendo-a sentir irritada, culpada ou envergonhada, ainda nos tira o poder de resolver a situação. Isto, porque é a outra pessoa que nos faz sentir dessa forma e nós não temos qualquer poder sobre a situação. Esta frase transmite-nos a ideia, que a forma como nos sentimos, depende a 100% da outra pessoa,

#3 Motivo – “Tu fazes-me sentir…” mostra que não entendemos realmente porque é que nos sentimos assim.

Se contarmos uma anedota a alguém, essa pessoa pode ficar séria, pode esboçar um pequeno sorriso, pode dar grandes gargalhadas ou até pode ficar chateada. Da mesma forma, o que alguém nos diz ou faz, gera-nos uma enorme variabilidade de reacções. O que isso nos mostra, é que a forma como reagimos, é uma combinação entre o que a outra pessoa diz e como nós interpretamos o que a outra pessoa diz.

Então, a forma correcta será mesmo “Eu sinto-me…”, porque é a nossa reação, à interpretação que fizemos da mensagem. Desta forma, também conseguimos refletir mais sobre o motivo de estarmos assim.

O desafio deste mês vai incidir sobre uma pequena alteração da comunicação, que traz um grande impacto nas relações pessoais e profissionais. Cada vez que te sentires de determinada forma, começa a frase por “Eu sinto-me…” em vez de “Tu fazes-me sentir…”. Depois de expressares a emoção, podes continuar a desenvolver o motivo que sentes que está por detrás, evitando o tom acusatório.

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