Mês: Novembro 2018

A Nossa Perceção dos Outros Tem Uma Ligação ao Nosso Bem-estar Emocional

Vamos imaginar que dois amigos, a Ana e o António, conhecem uma nova pessoa: o João. Passam algumas horas com o João, falam de vários temas e despedem-se. No caminho de volta para casa, a Ana diz ao António que adorou conhecer o João, que era uma pessoa muito simpática, informada e entusiasta. No entanto, o António responde que ela está errada, pois o João claramente era uma pessoa falsa, que estava apenas a representar e que quando estivesse sozinho, iria falar mal deles.

Quando conhecemos alguém novo, é comum termos opiniões diferentes da mesma pessoa e por vezes contrárias, como neste exemplo. Então quem será que tem razão? Será que algumas pessoas são exímias em conseguir, com base numa primeira impressão, fazer uma leitura precisa da outra pessoa? E porque é que somos capazes de ter tantas avaliações diferentes da mesma pessoa, dos mesmos comportamentos?

Dusting Wood, da Wake Forest University, Peter Harms da University of Nebraska e Simine Vazire da Washington University, fizeram um estudo sobre a avaliação da perceção dos outros e chegaram a uma conclusão muito interessante (Wood, Harms, Vazire, 2010).

Os resultados do estudo mostraram que como nós percecionamos os outros no nosso meio, revela mais sobre a nossa personalidade, do que efetivamente algo sobre os outros. E quando os autores analisaram os resultados, estes foram muito mais longe do que uma mera projeção da autoimagem de um individuo na outra pessoa. A forma como percecionamos os outros, vai mais longe que isso, pois pode indiciar os nossos próprios traços de personalidade e possíveis distúrbios.

Os indivíduos que percecionavam os outros mais positivamente, reportaram maior afabilidade e menor hostilidade, maior satisfação com a vida e menores medidas associadas a distúrbios de personalidade, depressão e atitudes antissociais.

Adicionalmente, outra conclusão interessante, foi que estes indivíduos, tinham ainda mais probabilidade de serem avaliados positivamente pelo grupo que avaliaram e descreviam as suas experiências no grupo mais positivamente. Então, a forma como os outros eram percecionados, determinava a forma como este eram percecionados pelos outros, bem como experienciavam a situação. No nosso dia-a-dia, podemos estar numa situação social (jantar, convívio, com colegas de trabalho, etc) e não gostamos da experiência, indo buscar argumentos para suportar essa nossa conclusão. No entanto, o que este estudo aponta, é que muitas vezes esse processo todo inicia-se em nós, na nossa perceção. Não foi o convívio que foi mau, foi por nós termos percecionado as outras pessoas mais negativamente, logo ao início, que tornou o convívio mais desagradável.

Embora não tenha sido possível atribuir a direção causal destas relações, a investigação indicou fortemente que o quão positivo nós percecionamos os outos num grupo, tem uma relação importante com as nossas emoções, bem-estar, objetivos, valores e atitudes.

Outro dado fascinante, foi que, embora alguns investigadores discutam que cada distúrbio de personalidade possa ter o seu conjunto específico de viés cognitivos (Beck et al., 2004), este estudo verificou que vários distúrbios de personalidade estão associados apenas a uma dimensão: o quão positivos os outros são avaliados por nós. Então, a nossa perceção dos outros, aparenta ter uma importância tão extrema, como ser um próprio sinal de possíveis distúrbios de personalidade nossos.

Os investigadores deste estudo apontam duas enormes implicações desta descoberta:

  1. Em primeiro lugar, percecionar os outros como pouco amistosos, não confiáveis, infelizes e desinteressantes, pode ter como base um conjunto de cognições negativas que agem como causa comum também a distúrbios de personalidade.
  2. Em segundo lugar, se as perceções negativas de outros podem estar por trás de vários distúrbios de personalidade, então trabalhar a nossa perceção dos outros, de forma a vê-los de forma mais positiva, pode ajudar a reduzir os padrões comportamentais associados a diferentes distúrbios de personalidade.

 

Referências bibliográficas

Beck, A. T., A. Freeman & D.D. Davis (2004). Cognitive Therapy of Personality Disorders (2nd ed.). New York, N.Y.: Guilford Press.

Wood, D., Harms, P., & Vazire, S. (2010). Perceiver effects as projective tests: What your perceptions of others say about you. Journal of Personality and Social Psychology, 99(1), 174-190.

 

#11 Desafio 2018 – Relacionamentos Interpessoais

Chegamos a Novembro, o 11º mês do ano e o 11º desafio do ano!

Em Outubro estivemos a treinar a categoria de Inteligência Emocional, “Expressão Emocional”. Este mês a categoria vai ser sobre “Relacionamentos Interpessoais“.

Vamos recordar os desafios mensais dos últimos 10 meses:

A qualidade dos nossos relacionamentos interpessoais são de extrema importância para a nossa saúde, bem-estar psicológico e bem-estar físico.

Se tivermos más relacionamentos, os nossos processos psicológicos resultantes dessas experiências podem prejudicar o nosso sistema imunitário, aftetar o nosso sistema cardiovascular e aumentar o rico de depressão (Graham, Christian, & Kiecolt-Glaser, 2006). Por outro lado, as relações positivas estão mais associadas com processos positivos que nos fazem experienciar um elevado bem-estar. O suporte social tem sido estudado por vários investigadores e mostram que providenciam um recurso para lidar com o stress que experienciamos no dia-a-dia, que prejudica a nossa saúde e bem-estar (Thoits, 2010).

Das investigações que têm sido feitas, muitas centram-se nos relacionamentos amorosos e conjugais. Estar casado, especialmente casado e feliz, está associado com uma saúde física e mental maior (Carr & Springer, 2010) e a força do efeito matrimonial na saúde, é comparado a outros fatores de risco tradicionais como fumar ou a obesidade (Sbarra, 2009).

Mas não são só os relacionamentos amorosos que afetam a nossa saúde. Os relacionamentos familiares, profissionais e de amizade, todos eles impactam a nossa saúde, e o nosso bem-estar físico e psicológico. Então, é de extrema importância, melhorarmos a qualidade dos nossos relacionamentos interpessoais. Mais do que quantidade, na fase adulta da vida, o maior impacto está na qualidade das nossas relações. O psiquiatra Robert Waldinger descreveu alguns segredos para a felicidade num discurso que deu no TED. Disse que as três lições-chaves para a felicidade são: relações pessoais próximas, qualidade das relações (e não quantidade) e casamentos estáveis e compreensivos.

Ao não trabalharmos os nossos relacionamentos, caminhamos em direção à solidão, e isso tem consequências devastadoras para a nossa saúde. Psicólogos como John Cacioppo e Sheldon Cohen, têm vindo a mostrar que as pessoas que se sentem só, tendem a ter um maior risco de mortalidade, infecções, depressão e declínio cognitivo. É importante dar nota que este efeito tem vindo a ser verificado nas pessoas que reportam sentirem-se sós e não tanto nas pessoas mais isoladas socialmente. Embora este efeito não se tenha verificado tanto naquelas que estão isoladas socialmente, mas não se sentem só, termos relações saudáveis, tende a aumentar o nosso bem-estar físico e psicológico.

Durante este mês, quando tiveres conversas ou discussões em que exista um conflito de pontos de vista, tenta entender o outro lado antes de tentares ser compreendido. Quando ouvimos algo que percecionamos como um ataque ou crítica, faz com que nos queiramos defender automaticamente, não ouvindo corretamente o outro lado, perdendo a oportunidade de entendê-lo. Durante este mês, tenta entender primeiro o outro lado, antes de tentares explicar o teu.

 

 

Referências bibliográficas

Carr D., & Springer K. W. (2010). Advances in families and health research in the 21st centuryJournal of Marriage and Family72, 743–761. doi:10.1111/j.1741-3737.2010.00728.

Graham J. E., Christian L. M., & Kiecolt-Glaser J. K. (2006). Marriage, health, and immune function: A review of key findings and the role of depression. In Beach S. & Wamboldt M. (Eds.), Relational processes in mental health, Vol. 11. Arlington, VA: American Psychiatric Publishing, Inc.

Sbarra, D. A. (2009). Marriage protects men from clinically meaningful elevations in C-reactive protein: results from the National Social Life, Health, and Aging Project (NSHAP). Psychosomatic medicine71(8), 828-35.

Thoits, P. A. (2010). Stress and Health: Major Findings and Policy Implications. Journal of Health and Social Behavior51(1_suppl), S41–S53. https://doi.org/10.1177/0022146510383499

 

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