Mês: Julho 2020

A incerteza no mundo empresarial

Ser empreendedor, significa que diariamente irá lidar com situações incertas e com desafios imprevisíveis.

Este fator do desconhecimento e da incerteza sobre o futuro, é sem dúvida um fator que trava muitas ideias, muitos projetos e muitos empreendedores. Vamos tentar perceber um pouco melhor como é que a incerteza pode-nos afetar e o que podemos fazer com isso.

 

Imagine que lhe eram propostas as seguintes opções:

1. Levar um choque elétrico daqui a 10 minutos;

2. Não levar um choque elétrico;

3. Pode levar, ou não, um choque elétrico e não sabia quando lhe iriam dar o choque (caso levasse).

Qual das opções gera mais desconforto?

Embora a primeira opção tenha 100% de hipóteses de acontecer e que ninguém quer, ficamos mais desconfortáveis com a terceira opção. Não parece muito racional, pois temos menos hipóteses de receber um choque na terceira opção, mas mesmo assim é aquela que gostamos menos.

Jeff Hawking, autor do livro “On Intelligence”, escreve que o nosso cérebro recebe padrões do mundo exterior, guarda-os na forma de memórias e faz previsões, combinando com aquilo que viu antes e com o que está a acontecer no momento. Isso significa que a previsão é uma das funções principais do cérebro. E se a previsão é algo que o nosso cérebro faz recorrentemente, então significa que quando não tem informação suficiente para fazer previsões, começamos a experienciar desconforto psicológico e o medo entra em ação.

Um dos maiores medos dos empreendedores é o medo de falhar. O nosso cérebro fica mergulhado na incerteza e começa a experienciar a probabilidade de falhar e de não conseguir alcançar os objetivos. Gabriella Cacciotti, da Universidade de Warwick, fez um estudo sobre o medo e o empreendedorismo e verificou que o medo é uma enorme barreira psicológica para os empreendedores.

Então, os empreendedores têm uma tarefa herculana, que é diariamente lutarem contra o que o seu próprio cérebro quer, que é um futuro com certezas. Embora esta possa parecer uma batalha inglória e sem forma de vencer, podemos utilizar estes mecanismos do nosso cérebro a nosso favor, se utilizarmos e desenvolvermos a nossa inteligência emocional.

A inteligência emocional é a capacidade de reconhecermos os nossos estados emocionais e geri-los, bem como entender os estados emocionais dos outros e conseguirmos relacionarmo-nos com as outras pessoas. Esta área tem tido um crescimento imenso, dada a sua importância.

O Fórum Económico Mundial, que tende a reunir grandes líderes empresariais e políticos, para discussão de temas de grande interesse para a sociedade, projetou as competências que consideram ser necessárias para prosperarmos na quarta revolução industrial, tendo colocado a inteligência emocional no TOP10 (6º lugar).

E como é que podemos utilizar a inteligência emocional nesta situação? Através de 2 estratégias:

1. Entender a influência dos nossos estados emocionais

Um dos passos muito importantes é utilizar a nossa autoconsciência emocional. A autoconsciência foca-se em entender que estados emocionais estamos a experienciar e que esses estados impactam o nosso processamento cognitivo. Por exemplo, imaginemos que um empreendedor tem uma nova ideia e começa a ter dúvidas sobre o projeto e pensa que pode falhar. Se o empreendedor parar um momento e refletir sobre o seu estado emocional, provavelmente notará que está a sentir medo. O medo não é um traço, mas sim um estado temporário, e neste caso, possivelmente gerado pela incerteza. Quando estamos com medo, o nosso cérebro foca-se nos nossos receios e tem maior dificuldade em analisar de forma racional a situação, ficando mais motivado a afastar-nos daquilo que nos mete medo. No entanto, quando ganhamos consciência do que estamos a sentir e que os nossos pensamentos não são “verdadeiros”, mas são gerados pelo nosso estado emocional, conseguimos ganhar uma maior clareza sobre o assunto e reduzir o medo que estamos a sentir. Ou seja, um empreendedor consegue mais facilmente entender que as ideias negativas que está a ter sobre o seu projeto, não se deve ao projeto em si, mas ao facto de estar a experienciar medo. E com esta tomada de consciência, podemos dar passos mais objetivos e contornar este estado emocional. E se não o conseguirmos no momento, pelo menos entendemos que não estamos no melhor estado para analisar a situação, evitando tomar decisões precipitadas ou tirar ilações erradas.

2. Utilizar os nossos estados emocionais a nosso favor

Não existem boas ou más emoções. Todas as emoções têm uma função adaptativa, no entanto, podem-se tornar disfuncionais, caso não tenhamos consciência do impacto que elas estão a ter em nós. O medo não foge à exceção. Ele pode ser paralisante, mas também nos dá energia que podemos utilizar a nosso favor. Como o medo realça a distância de onde estamos até onde queremos chegar, podemos utilizar esse fator para aumentar a nossa preparação. Podemos rever os planos, procurar mais informação e dividir o nosso plano em várias metas mais pequenas, reduzindo a incerteza. O medo consegue-nos fazer ver que existem coisas que estão em falta, recursos que estão em falta e que precisamos de arranjar. Conseguimos, portanto, melhorar o nosso projeto e gerar mais ideias. Imagine que podia anular completamente o medo da sua vida. Se isso acontecesse, muitos dos seus planos iriam falhar, porque não se preparava minimamente, não tinha qualquer aversão ao risco e não refletia sobre os seus projetos.

O mundo está cheio de incerteza e o empreendedorismo aumenta essa mesma incerteza. Mas embora o nosso cérebro não esteja programado para reagir bem à incerteza, não significa que esse seja um fator negativo.

Se utilizarmos a inteligência emocional a nosso favor, podemos utilizar essa forma de funcionamento do nosso cérebro de forma benéfica, conseguindo melhores resultados.

As Emoções no Mundo Digital

Existem muitas teorias que diferem sobre a origem e a construção das emoções, mas existe um ponto que gera um consenso e que a ciência tem vindo a demonstrar: as emoções impactam a nossa tomada de decisão, quer queiramos quer não.

Um individuo está a tentar fechar uma negociação, mas está a ter dificuldades. Utiliza todos os argumentos lógicos e possíveis, indica as vantagens e as desvantagens e apresenta os números a seu favor. O outro lado continua a recusar o negócio, apresentando uma postura fechada. A dado momento, revelamos que nascemos numa certa cidade. E não é que do outro lado da mesa, essa pessoa também é natural de lá? A conversa centra-se nesse ponto em comum, existem alguns risos e partilhas de bons momentos que passaram lá, bem como pessoas conhecidas em comum. Passado alguns minutos, o outro lado inclina-se para a frente e pede mais alguma informação sobre o negócio. E conseguimos fechar a negociação.

Esta situação é muito comum, mas não tem nada de racional. Dizemos que o ser humano é um ser racional, mas antes de racional, é emocional.

A informação que chega ao nosso cérebro é primeiramente processada por regiões subcorticais que são responsáveis pela informação emocional e só depois é que chega às regiões corticais, processando a informação racionalmente. Isto significa que estamos a ser constantemente afetados pelas nossas emoções, quer queiramos, quer não. E podemos mesmo preferir prejudicar-nos, se o nosso estado emocional nos levar por esse caminho. Algumas teorias económicas defendem que os indivíduos fazem escolhas de forma a maximizar os seus ganhos. No entanto, existe uma experiência denominada de “Jogo do Ultimato” que mostra o oposto. Imaginemos uma situação em que estamos numa sala e outro individuo está noutra sala e é feito um sorteio, em que quem ganhar vai receber 100€, mas tem que dividir esse dinheiro com a outra pessoa. Mas existem duas regras: a primeira é que a pessoa vencedora pode escolher dividir o dinheiro da forma que entender e a segunda é que se a outra parte recusar, ninguém ganha dinheiro. O outro indivíduo ganha o sorteio e decide-nos dar 50%. O que faríamos? A maioria das pessoas tende a aceitar. É uma divisão justa, em que ambos ganham o mesmo. Agora, vamos supor que ele decide dar-nos 10€ e ficar com 90€. O que faríamos? Mais de metade das pessoas recusa o valor. Mas esta decisão não tem nada de racional, pois nós não tínhamos qualquer dinheiro e iriamos ganhar 10€. No entanto, a maioria dos indivíduos sente que essa divisão é injusta e o sentimento de injustiça sobrepõe-se à nossa análise racional e lógica. As emoções estão presentes em todas as nossas decisões e impactam o nosso processamento cognitivo e a forma como percepcionamos o mundo. E, nas tecnologias, não é excepção. Algo tão tangível e físico como um telemóvel, pode gerar estados emocionais diversos. Foi feito um estudo por Fortunati e Taipale (2012), inquirindo mais de 3.000 mulheres de cinco países Europeus (Itália, França, Reino Unido, Alemanha e Espanha), tendo verificado que as emoções que sentiam perante o seu telemóvel eram predominantemente positivas. Uma das razões era que estar com o seu telemóvel, dava-lhes um sentimento de segurança, pois em caso de perigo, poderiam contactar rapidamente qualquer pessoa, inclusive autoridades policiais, de forma rápida.

No entanto, também existe investigação que demonstra que experienciamos sentimentos negativos por via da utilização do telemóvel. Por exemplo, quando enviamos uma mensagem de texto, esperamos que o recipiente esteja conectado permanentemente, pelo que um atraso na resposta gera uma insatisfação pessoal e sentimento de rejeição. Várias pessoas também experienciam sentimentos de pânico quando se esquecem do seu telemóvel ou mesmo quando ficam sem bateria. No mundo digital, as emoções ganham uma proporção ainda maior, pois somos afetados por conteúdos e comentários de toda a parte. Essa informação que nós recebemos, afeta os nossos estados emocionais e o nosso comportamento.

Foi feito um estudo feito pela Universidade da Califórnia e pela Universidade de Cornell, em que, em conjunto com a rede social Facebook, foi manipulado o feed de notícias de 690.000 utilizadores durante uma semana. Um grupo de utilizadores recebeu notícias positivas e outro grupo recebeu notícias com comentários negativos. O estudo verificou que quando as pessoas viam menos notícias negativas, escreviam menos publicações negativas. E, quando as pessoas viam menos notícias positivas, escreviam menos publicações positivas. Então, as emoções expressas por outros através de redes sociais, influenciam as nossas próprias emoções, influenciando o nosso comportamento. O ser humano tem uma grande necessidade de expressar as emoções que está a sentir e podemos verificar isso novamente através do Facebook. Durante anos esta rede social tinha apenas um botão de “Gosto” e muitas pessoas pediam também um botão de “Não gosto” ou mais formas de expressar o que estavam a sentir perante aquela publicação, até que o Facebook adicionou vários emojis, onde agora os utilizadores podem expressar sentimentos como “Adoro”, “Riso”, “Surpresa”, “Tristeza” e “Raiva”. Este efeito das emoções no nosso comportamento e na nossa tomada de decisão, tem despertado várias empresas que apostam no marketing e publicidade digital. A expressão “As pessoas compram emocionalmente, mas justificam racionalmente”, tem vindo a ser validada pelos estudos feitos e pelas campanhas de publicidade montadas.

Em 2016, a Temkin Group fez um estudo para verificar o impacto de uma associação emocional positiva com uma marca específica e mostrou que os consumidores que tinham experiências emocionais positivas com a marca, tinham 15 vezes mais probabilidade de recomendar essa empresa, 7.8 vezes mais probabilidade de tentar novos produtos ou serviços e 6.6 vezes mais probabilidade de perdoar a empresa após um erro. A neurociência tem trazido mais informação ao impacto das emoções na nossa tomada de decisão, sendo possível medir reações biológicas e neurológicas quando um consumidor vê um anúncio.

A Nielsen Company, que analisa dados de consumidores por todo o mundo, analisou mais de 100 estudos de 25 marcas e verificou que os anúncios com uma resposta emocional positiva superior, gerou um aumento de 23% nas vendas. O futuro das empresas do mundo digital passa por aqui. Quando analisarem novos produtos, novas publicidades e novas campanhas, devem focar-se principalmente na experiência emocional do consumidor. Porque a forma como o consumidor se sentir perante essa informação, vai ser preponderante na forma como o mesmo vai reagir. E a forma como reagir, vai ditar o resultado da empresa.

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