Mês: Agosto 2020

O Mito do QI

No início do século XX, instalou-se um mito que ficou enraizado até aos dias de hoje, embora já se esteja a dissipar, à luz das centenas de estudos que têm saído. Trata-se de considerar o QI o único fator de previsão de sucesso de uma pessoa.


Atualmente, existem centenas de estudos e artigos que comprovam que o QI é apenas mais um fator a ter em conta, e não o fator determinante para apurar o sucesso de um líder ou trabalhador.


Esta ideia continua fortemente enraizada no mundo empresarial, visto que a maior parte das empresas apenas usa a formação académica e as médias obtidas como fatores de contratação. Apesar de estes fatores serem componentes muito importantes, estão longe de ser determinantes para prever o sucesso e o retorno que o trabalhador poderá trazer à empresa.


Uma coisa muito curiosa e interessante é a forma como o QI apareceu.


No final do século XIX, a educação em França estava a sofrer grandes alterações estruturais, tendo passado a vigorar uma lei que tornava obrigatória a frequência escolar de crianças com idades compreendidas entre os seis e os catorze anos.


A pedido do governo francês, o psicólogo Alfred Binet foi convidado para uma comissão que pretendia desenvolver um método científico que conseguisse avaliar as crianças e detetar aquelas que tivessem dificuldades de aprendizagem, para que as mesmas fossem postas em salas de ensino especial. Em conjunto com o seu assistente, Théodore Simon, foram desenvolvidos inúmeros testes e, em 1903, publicaram o livro L’étude expérimentale de l’intelligence, no qual descreveram os seus métodos, particularmente a escala Binet-Simon, que veio a sofrer várias revisões, tendo a última sido em 1911, aquando da morte de Alfred Binet.
Em 1916, Lewis Terman, da Universidade de Stanford, nos EUA, publicou a versão revista do teste desenvolvido por Alfred Binet, tendo ficado mundialmente conhecido como o «Teste do QI».


Embora, desde então, o QI tenha ganho o estatuto de grande referência na previsão da inteligência de um indivíduo e, consequentemente, do seu sucesso, não foi essa a conclusão do estudo de Terman (o que não deixa de ser curioso, visto que ele foi um dos grandes defensores do QI enquanto fator de previsão para o sucesso!).

Nos anos 20, Terman publicou um estudo muito ambicioso e pio¬neiro na sua área, denominado «The Genetic Studies of Genius», que visava o registo dos sucessos e insucessos dos seus participantes, todos eles com QI elevado.
Inicialmente, os resultados foram aquilo que Terman esperava.


Os participantes do estudo, todos eles com um QI elevado, pareciam estar a atingir um grau elevado de sucesso nas suas vidas, e, dessa forma, ganhou ainda mais força a ideia de que o QI realmente previa o sucesso.
Tornando-se este o teste padronizado para medir o QI das crianças, começaram a aparecer os rótulos sobre quem iria ter sucesso e quem não iria conseguir vingar na vida. O QI parecia ser a resposta.
No entanto, enquanto os anos decorriam, o estudo começou a mostrar um perfil diferente.


Ao fim de algumas décadas, Terman tinha no seu estudo crianças que, em adultas, vingaram na vida, mas também tinha outras que a sociedade não considerava bem-sucedidas.


Algumas dessas crianças eram adultos que possuíam empregos medíocres e sem futuro e alguns tinham até enveredado por uma vida criminosa.
Desde então, inúmeros estudos têm vindo a comprovar a seguinte teoria: o QI não prevê o sucesso de uma pessoa. Nos anos 50, foi feito um estudo a alunos do doutoramento em Ciências da Universidade da Califórnia, em Berkeley, nos EUA, no qual foram efetuados testes de personalidade, QI e entrevistas.

Passados 40 anos, quando estes antigos alunos estavam perto dos seus 70 anos de idade, foram localizados e foi feita uma estimativa do sucesso que tinham alcançado com base no seu currículo, em avaliações feitas por pessoas de referência nas suas áreas e com recurso a outras fontes, tais como a American Men and Women of Science.


O estudo concluiu que as capacidades emocionais e sociais eram quatro vezes mais importantes do que o QI, como fator para determinar o sucesso profissional e o prestígio (Feist & Barron, 1996).
Claro que isto não significa que o QI, ou seja, as nossas capacidades cognitivas, sejam irrelevantes para o sucesso, ainda mais numa área tão técnica como as ciências. Aliás, é um absurdo pensar assim.
Contudo, julgo que a relevância deste estudo é o elemento de homogeneidade en¬tre os alunos, já que todos tinham um QI elevado, visto estarem a tirar um doutoramento em Ciências, e, no fim, foram os alunos com melho¬res competências emocionais e sociais quem teve mais sucesso na vida.


Quando o QI é o mesmo ou semelhante, não é ter mais cinco ou dez pontos que vai fazer a diferença na nossa vida.
O que vai fazer diferença é a forma como lidamos com as adversidades, como gerimos o stresse e as nossas emoções, e como nos motivamos, reconhecemos as emoções e nos relacionamos com as pessoas à nossa
volta.


Walter Mischel foi, sem margem para dúvidas, uma das pessoas que mais contribuíram para provar que o QI não é, afinal, o elemento que mais prevê o sucesso. Em 1972, este psicólogo fez um estudo que ainda hoje continua a ser replicado e que revolucionou a forma como se passou a olhar para o sucesso. Intitulou esse estudo de «O Teste do Marshmallow».
O estudo contou com 600 crianças, com idades compreendidas entre os quatro e os seis anos de idade, que eram sentadas individualmente a uma secretária, numa sala fechada, com um marshmallow num prato, à sua frente.


O investigador explicava então à criança que esta ia ficar um momento sozinha e que, se enquanto esperava que ele voltasse, não comesse o marshmallow, ganharia então mais um, comendo, portanto, dois marshmallows. Se, por acaso, comesse o marshmallow durante o período em que ficava sozinha, à espera, não ganhava mais nenhum.
Com esta experiência, Mischel pretendia testar a resistência ao impulso, ou seja, a capacidade de adiarmos a satisfação instantânea, de forma que obtenhamos uma recompensa maior e a longo prazo, e como esta característica, detetável logo numa fase inicial da vida, poderia afetar o futuro do indivíduo.


Passados 16 anos, em 1988, Mischel entrou em contacto com os participantes iniciais e os resultados foram impressionantes: aqueles que tinham conseguido resistir ao impulso de comer o marshmallow e aguardado eram agora jovens mais assertivos, com melhores relações sociais, com melhor desempenho académico e com um maior grau de satisfação com a vida. Por outro lado, a maioria daquelas crianças que não resistiram e comeram logo o marshmallow tinha agora um perfil psicológico mais problemático, era menos social, menos assídua na escola, tinha um pior desempenho académico e um menor grau de satisfação com a vida.


Ao longo dos anos, a experiência foi repetida várias vezes por muitos grupos independentes e as conclusões têm sido idênticas.
A aptidão para adiar o prazer parece ser a característica mais estreitamente relacionada com o sucesso na vida.


Embora possa parecer intrigante ao início, a explicação de ser assim é bem simples. Se formos capazes de resistir ao impulso inicial de algo que nos traga uma gratificação instantânea, mas que seja mais penalizadora a longo prazo, pensando numa maior recompensa num espaço de tempo longo, então, mais facilmente obtemos essa recompensa.
Mais uma vez, reforço que o QI é importante, já que nos permite assimilar melhor a informação, aprender mais depressa e tornarmo-nos melhores tecnicamente nas nossas funções, mas não é o QI que realmente vai determinar o nosso sucesso.


Se não formos capazes de saber gerir o nosso stresse, a nossa felicidade extrema, a nossa tristeza, entre outras emoções, e se não formos capazes de saber gerir as emoções daqueles que nos rodeiam, então, por muito bons que sejamos tecnicamente, as emoções vão sempre comandar e influenciar as nossas ações e, com isso, o nosso desempenho, o nosso resultado e o nosso sucesso.


Então, o segredo está em utilizar a nossa inteligência emocional.


(Retirado do Livro “Inteligência Emocional – uma abordagem prática” de Paulo Moreira)

Princípios sobre o funcionamento do nosso cérebro

O nosso cérebro é uma máquina maravilhosa.

Mas como qualquer máquina, temos de entendê-la para saber manobrá-la da melhor forma.


Seguem 7 princípios fundamentais sobre o funcionamento do nosso cérebro.

1. É tudo sobre sobrevivência


Para o nosso cérebro, o objetivo é a sobrevivência e ele é muito bom nisso.
Para sobreviver, o cérebro precisa de duas coisas: evitar ameaças e procurar recompensas.
As ameaças tanto pode ser o tigre dentes de sabre como uma crítica recebida do nosso chefe e as recompensas pode ser abrigo, comida e água, como pode ser um elogio.
No entanto, a ameaça é muito mais importante, porque se um tigre nos apanha, é o nosso fim.

2. O impacto da ameaça e recompensa no nosso cérebro

As respostas de ameaça e recompensa têm um impacto em nós fisicamente e mentalmente. Comparado com a recompensa, a resposta de ameaça:

  • É mais rápida
  • É mais forte
  • Dura mais
  • Aumenta o ritmo cardíaco
  • Aumenta o cortisol
  • Reduz a dopamina


A resposta de recompensa sabe bem, mas não dura tanto. De uma perspetiva de sobrevivência, não precisa.
Pensa numa altura que recebeste um e-mail a criticar o teu trabalho. Por outro lado, pensa num e-mail em que recebeste um elogio ao teu trabalho. Acredito que o e-mail da crítica tenha tido um peso maior.
Da mesma forma, se encontrarmos 50€ no chão sentimo-nos sortudos. Mas se perdermos 50€, a intensidade dessa dor vai ser maior e mais duradoura.

3. O nosso cérebro é uma máquina de fazer previsões

Os nossos cérebros são máquinas que estão sempre a tentar prever o que vai acontecer.
Estão constantemente, inconscientemente, tentar adivinhar o que nos vai acontecer.
É um sistema, de novo, desenhado para nos proteger.
Na savana, era útil conseguirmos prever se um arbusto mexesse se era algum predador. A previsão ajuda-nos a tomar decisões mais rápido.
Este desejo do cérebro em prever as coisas, significa que o cérebro gosta de informação e de certeza – se o nosso cérebro tiver informação, são melhores a conseguir prever.
Todas as mudanças envolvem incerteza, que impede os nossos cérebros de fazer aquilo que gostam de fazer – previsões.
O nosso cérebro não gosta de ambiguidade, gosta de previsão e quer prever e encontrar significado.
De facto, estudos sugerem que nós podemos viver mais confortavelmente com a certeza sobre um resultado negativo do que com incerteza.
A capacidade de prever não é a única razão por que os nossos cérebros gostam de certezas, Termos certeza, remove o desconforto psicológico.
Quando estamos numa situação familiar e confortável no trabalho, o nosso cérebro pode trabalhar em autopiloto, utilizando caminhos neurais que utiliza várias vezes, com fortes ligações sinápticas.
Mas quando sentimos incerteza, várias áreas do cérebro ficam ativas, em particular, aquelas áreas que fazem parte da nossa rede do medo.
A incerteza regista-se como um erro ou uma falha, algo que deve ser lidado antes de podermos sentirmo-nos confortáveis outra vez.

4. O nosso cérebro quer conservar energia


O cérebro pesa apenas 1.360 gramas e é o objeto mais complexo do sistema solar. Embora corresponda apenas a 2% do peso do corpo, consome 20% da nossa energia.
Nos recém-nascidos, consome a espantosa percentagem de 65% da energia. Dentro do nosso crânio existem cerca de 100 mil milhões de neurónios, com um número exponencial de conexões e vias neuronais.
Os nossos cérebros querem conservar energia e, portanto, tendem a ser preguiçosos. O facto de sermos seres de hábitos e de rotinas tem também esse propósito de poupança energética.
Quando acordamos temos o mesmo procedimento. Não pensamos se primeiro vestimo-nos ou comemos, se primeiro vestimos as cuecas ou a blusa, se lavamos os dentes antes ou depois do pequeno-almoço. Tomar todas essas decisões conscientemente seria um gasto energético enorme, não conseguindo chegar ao fim do dia com capacidade de tomar decisões.

5. O cérebro utiliza atalhos


Este desejo de poupar energia, significa que muitas vezes o cérebro utiliza o caminho da menor resistência: gosta de atalhos onde não tem de trabalhar tanto.
Isto pode ser útil mas também problemático.
Útil, porque poupa energia e tempo e remove a necessidade de pensar em todas as decisões que somos confrontados, mas problemático porque faz-nos tomar decisões inconscientemente e que por vezes não são as melhores para nós.

6. A vida mudou. O cérebro não.


A vida tem mudado rapidamente nas últimas décadas, mas o nosso cérebro não.
Isso é um grande desafio para o nosso dia-a-dia. Nós vivemos no século 21, mas o nosso cérebro está desenhado para viver na savana.
Reagimos a uma crítica, como reagimos a um ataque físico. O cérebro não consegue separar essas duas situações.

7. O nosso cérebro é “plástico”


É uma das descobertas mais úteis e excitantes da neurociência. O nosso cérebro tem a capacidade de continuar a aprender e a restruturar-se, mesmo na fase adulta: a chamada neuroplasticidade.
A neurociência mostrou que o cérebro pode mudar em resposta a experiências, pensamentos e atividade mental.
Então, a atividade mental não é só um produto do cérebro, mas também o molda.
O cérebro muda a sua estrutura com cada atividade diferente que desempenha, melhorando os seus circuitos, para que o cérebro fique mais bem-adaptado à tarefa e fazendo com que fique mais fácil desempenharmos essa tarefa.
Este fortalecimento de ligações sinápticas é conhecido por “Lei de Hebb” (1949): células que disparam juntas, ligam-se juntas.
A neuroplasticidade significa que a comunicação constante entre dois neurónios leva a que os mesmos criem uma ligação mais forte de forma a que possam comunicar mais facilmente em conjunto.
Se conseguem comunicar mais facilmente, podem fazê-lo mais rápido e com menos esforço.
Tal como as conexões sinápticas aumentam e fortalecem através de repetição, também as ligações enfraquecem e desaparecem se não as utilizarmos.
O cérebro utiliza uma abordagem: usa ou joga fora.
Estes 7 grandes princípios do cérebro têm vindo a ser estudados pela neurociência e devemos ter em conta no nosso dia-a-dia.
O facto de nos sentarmos sempre no mesmo sítio, a forma como reagimos exageradamente a situações, porque é que sentimos mais as perdas do que os ganhos, o receio da incerteza.
Tudo isto tem como base a nossa arquitetura cerebral.
Apenas entendendo isso é que podemos desenhar estratégias para utilizar esta programação da melhor forma e formas de contornar alguns pontos que não nos são úteis.

As vantagens de desenvolver a Empatia

O que é a Empatia?

A empatia é a capacidade de notarmos e sermos sensíveis aos sentimentos dos outros. É mostrar que entendemos como é que os outros se estão a sentir, mesmo que não concordemos e que mesmo que agíssemos de forma diferente na mesma situação.
As pessoas que conseguem criar empatia estão em sintonia com os sentimentos dos outros, conseguem ler bem as situações e conseguem colocar-se “nos sapatos” dos outros. Sabem que num momento de maior dificuldade emocional, a outra pessoa precisa de alguém que esteja ao seu lado e que a compreenda. E quando conhecem novas pessoas, estas pessoas têm a capacidade de quebrar o gelo mais rapidamente e criar laços facilmente, sintonizando-se em perfeita harmonia com os outros.
As pessoas pouco empáticas são mais distantes, desligadas e mostram pouca compaixão. Em vez de validarem e compreenderem os sentimentos das outras pessoas, fazem-nas sentir que não são ouvidas e que os seus sentimentos não têm qualquer importância. Em vez de apoiarem, estas pessoas concentram-se mais em ignorar ou então dar conselhos sobre o que deviam fazer.

Como é que a Empatia funciona?

O funcionamento da empatia foi descoberto por acidente, pelo Prof. Giacomo Rizzolatti e pela sua equipa de investigadores.
Estavam a conduzir uma experiência, gravando a atividade elétrica dos neurónios na parte motora do cérebro de um macaco, quando este agarrasse um amendoim e o colocasse na sua boca.
Cada vez que o macaco fazia isso, verificou-se que um conjunto de neurónios disparava. Entretanto, os investigadores foram almoçar e deixaram o macaco ligado com os elétrodos.
Quando um dos investigadores voltou do almoço, pegou num gelado e começou a comer à frente do macaco, quando verificou que os elétrodos registaram atividade na parte motora do cérebro, mesmo com o macaco completamente imóvel. Ou seja, era como se o cérebro do macaco estivesse a dar sinal que era ele a comer o gelado e não o investigador.
Esta descoberta foi designada de “neurónios espelho”, que dispara quando uma Acão é realizada ou quando alguém está a ver outra pessoa a realizar uma ação.
É esta capacidade do nosso cérebro, de espelhar as ações dos outros em nós, como se fossemos nós que estivéssemos a realizá-las, que nos faz ser capazes de perceber melhor as intenções e sentimentos das outras pessoas. Esta é a base da empatia.

A Importância da Empatia

A empatia é a base dos nossos relacionamentos pessoais. Quando alguém cria empatia contigo, dá-te a sensação de que a conheces há muito tempo, que ela é de confiança. Ao criarmos empatia ganhamos informação sobre a outra pessoa e conseguimos comunicar melhor.
A importância da empatia revela-se a vários níveis, inclusive a nível profissional.
Foi feito um estudo que comparou gestores de sucesso e gestores que não tinham sucesso na sua área.
O estudo mostrou que um dos maiores fatores que os diferenciou foi a inteligência emocional.
Dentro desses fatores estava a empatia, pois os gestores que falharam nos seus objetivos tinham uma fraca empatia, sendo com frequência agressivos, arrogantes e intimidavam os subordinados.
Os bem-sucedidos eram simpáticos e sensíveis, mostrando preocupação e consideração nas suas relações com todos, quer superiores, quer subordinados.
Se quiseres melhorar os teus relacionamentos pessoais e profissionais e se quiseres entender melhor as pessoas ao teu redor, então a empatia é uma área decisiva que deverás trabalhar. Embora existam pessoas que consigam criar empatia mais naturalmente que outras, também é possível treiná-la.

A Empatia através da leitura não verbal

A chave para compreender os sentimentos e emoções das outras pessoas são os canais não verbais, nomeadamente o tom de voz, os gestos, as expressões faciais, entre outros. Uma das maiores pesquisas sobre a capacidade de as pessoas lerem mensagens não verbais é de Robert Rosenthal, atualmente professor de Psicologia na Universidade da Califórnia em Riverside, e dos seus estudantes.
Rosenthal desenhou um teste para testar a empatia, o PONS, que consistia numa série de filmagens de uma jovem a expressar sentimentos que iam do nojo ao amor maternal.
O vídeo foi editado para que, em cada cena, um ou mais canais de comunicação verbal fossem desligados, tornando também as palavras impercetíveis. Por exemplo, em certas cenas apenas se veem as expressões faciais e noutras apenas o corpo e os gestos.
Nos testes feitos a mais de 7.000 pessoas nos EUA e noutros 18 países, verificou-se que os benefícios de sermos capazes de ler bem os sentimentos através das pistas não verbais incluem uma melhor adaptação emocional, maior extroversão social e maior sensibilidade para com os outros.
Então, isto significa que quanto mais formos capazes de reconhecer as emoções nos outros, quanto mais treinarmos esta aptidão, mais trabalhamos em nós próprios também.
Conseguimos adaptar-nos melhor aos eventos emocionais, melhoramos as nossas aptidões sociais e tornamo-nos mais sensíveis às necessidades dos outros, aumentando a nossa empatia.

O Contágio Emocional

O contágio emocional é um fenómeno que se dá quando as emoções e comportamentos de uma pessoa, afetam as emoções e comportamentos de outra pessoa.

Este fenómeno tem sido reconhecido na literatura psicológica como um tipo de influência interpessoal. Este contágio emocional ocorre frequentemente a um nível pouco consciente.

Sigal Barsade, professora e investigadora na área da inteligência emocional e cultura organizacional, tem feito alguns estudos sobre o impacto do contágio emocional.

Em um dos estudos feitos, dividiram alunos de uma escola de gestão em pequenos grupos para um exercício simulado. Cada um tinha de desempenhar um papel como líder de um departamento que queria dar um aumento de salário a um funcionário com base no seu mérito. Ao mesmo tempo, todos os estudantes eram parte de um “comité de salário”, negociando como melhor alocar o dinheiro disponível, que era limitado, para tentar arranjar um equilíbrio entre o seu funcionário e o benefício da empresa.

Cada grupo tinha um ator infiltrado, treinado para gerar quatro estados emocionais diferentes, dois positivos (entusiasmo e sentimento caloroso) e dois negativos (irritabilidade e um estado depressivo).

No final, os grupos que tinham sido contagiados de forma positiva, experienciaram um aumento positivo do seu humor. Mas o contágio emocional não parou aí. Esses grupos também demonstraram mais cooperação, menos conflito interpessoal e sentiram que desempenharam melhor na sua tarefa do que os grupos em que foram contagiados por emoções desagradáveis. Adicionalmente, os grupos em que as pessoas experienciaram emoções positivas, tomaram melhores decisões, alocando o dinheiro de forma mais justa.

Quando foi perguntado porque é que pensavam que tinham tido um melhor desempenho, eles apontaram para fatores como a sua capacidade de negociar ou as qualidades dos seus candidatos. Não tinham qualquer ideia de que os seus comportamentos e decisões foram afetados pela emoção sentida.

Isto significa que o contágio emocional existe no nosso local de trabalho, diariamente e somos afetados no nosso desempenho, sem nos apercebermos.

Devemos então, ter atenção aos estados emocionais das outras pessoas, pois elas vão-nos contagiar, mudando a forma como nos sentimos, pensamos e agimos.

E, ao mesmo tempo, também devemos ter atenção em como é que contagiamos as pessoas à nossa volta. Porque este contágio pode ter consequências devastadoras.

O ser humano é um ser social. Temos uma necessidade básica de pertencer a outros grupos e esta necessidade está profundamente enraizada na nossa história evolucionária.

Não conseguíamos ter sobrevivido até aos dias de hoje, se não nos tivéssemos mantido em grupos e dependendo dos indivíduos desses grupos. Quando esta necessidade de pertença não é respeitada, tem inúmeras consequências no bem-estar psicológico, emocional e físico. No entanto, é muito comum existir divisão de grupos nos locais de trabalhos.

Colegas que desenvolvem laços apenas com outros colegas que consideram como “semelhantes” e deixam de interagir com aqueles que não encontram tanto em comum. Esta forma de rejeição social, causa inúmeros prejuízos no nosso funcionamento social e no desempenho coletivo da empresa. Mas a rejeição pessoal não vem só através destas interações mais diretas com os colegas de trabalho.

Se um colaborador não for considerado para uma promoção quando achava que merecia, quando não é escolhido para um projeto que se candidatou, quando o seu chefe adia várias vezes uma reunião que pediu ou quando é publicamente criticado por um erro que fez, o seu cérebro sente-se rejeitado.

Nathan Dewall, Psicólogo da Universidade de Kentucky tem investigado o impacto da rejeição social e verificou que esta aumenta a raiva, ansiedade, níveis de depressão e tristeza, prejudicando o desempenho e contribuindo para um baixo autocontrolo.

DeWall também indica que as pessoas que se sentem rejeitadas diariamente, têm uma pior qualidade de sono e o seu sistema imunitário também é afetado.

E a rejeição social vai ainda mais longe.

Naomi Einsenberger, uma investigadora da Universidade de Columbia, descobriu que a rejeição social ativa áreas cerebrais semelhantes à dor física. Einsenberger diz que no que toca ao cérebro, um “coração partido” não é assim tão diferente de um braço partido.

Infelizmente, é muito comum vermos casos de exclusão e rejeição social em escolas e nos locais de trabalho.

Este é um tema muito importante e que temos de estar atentos, agora que a ciência tem vindo a demonstrar o impacto que tem no estado psicológico e físico da pessoa que se sente rejeitada.

Devemos estar atentos no local de trabalho aos relacionamentos que são fomentados e como são fomentados.

Todos devem-se sentir incluídos, pois isto causa um impacto sistémico, que vai desde a saúde do colaborador aos resultados da organização, bem a uma redução do bem-estar e satisfação familiar.

A origem do Stress

Ao longo dos últimos anos, a investigação mostrou que a origem da maior parte do nosso stress está no próprio cérebro. Dada a agitação da vida diária, o cérebro pode facilmente promover as ligações que favorecem o stress – amplificar o stress real nas nossas vidas e produzir uma sensação de perigo iminente mesmo quando este não existe.

Sempre que o stress do dia se sobrepõe à nossa capacidade de o processar eficazmente, há um preço a pagar.

 

O preço é um aumento da carga alostática, o desgaste do corpo e do cérebro devido aos episódios de stress. Essa carga de stress é cumulativa, pelo que um certo nível de momentos de stress pode transformar um cérebro normal num cérebro em stress permanente, sempre a produzir cascatas de hormonas.

O cérebro vai-se tornando mais sensível ao stress e com o tempo começa a desgastar as próprias estruturas e processos que foram concebidos para os proteger. Depois torna-se um íman de sintomas, tensão arterial alta, problemas nas costas aumento de peso, infeções, ansiedade, etc, e a cada novo sintoma, aumenta a carga de stress A pesquisa mais recente aponta para a natureza da resposta de stress: aquilo que sente no momento não é só o stress desse momento, mas também uma acumulação dos efeitos do stress ao longo do tempo. O stress é um tema que tem vindo a ser estudado ao longo das últimas décadas.

Hans Selye, considerado o “Pai do Stress” considerava que um evento negativo, gerava automaticamente a reação de stress. No entanto, este modelo apresentava uma grande limitação, que era a ausência do papel dos fatores psicológicos. Lazarus e Folkman, outros dois nomes fortes na área do stress, indicaram que a forma como lidamos com um evento negativo, é o resultado entre o julgamento sobre o que está em causa e a percepção das nossas opções para lidar com o evento. Estes autores desenvolveram teorias fundamentadas em processos cognitivos, mostrando que é o significado que damos aos acontecimentos e a avaliação que fazemos aos mesmos, que os transforma num evento de stress. Alguns autores têm vindo a verificar que ao longo do nosso ciclo de vida, vamos mudando as estratégias (coping) adaptativas, para lidar com os eventos negativos e existem estratégias que podemos aprender com indivíduos que estão noutras faixas etárias.

Para entendermos melhor como é que podemos lidar com um evento de stress ao longo da nossa vida, vamos ver como um jovem adulto, um adulto de meia-idade e um idoso tipicamente lidam.

 

Começando pelos jovens adultos, é interessante ver que embora ainda não tenham experienciado tantas perdas e tantos conflitos como os adultos de meia-idade e os idosos, são os que reportam experienciar mais stress. Tipicamente, perante um conflito, os jovens adultos tendem a focar-se mais na regulação emocional para lidar com o stress sentido (Arnett, 2001). Embora também direcionem comportamentos para a resolução do objetivo, não são tão diretos como os adultos de meia idade. Em vez de utilizar a regulação emocional, os adultos de meia idade tendem a utilizar mais estratégias focadas no problema.

Então, perante um evento negativo, é mais comum que um adulto nesta idade, tente abordar diretamente a pessoa ou situação, tentando comunicar de forma mais objetiva de forma a resolver a situação. É despendida muito mais energia a tentar eliminar os eventos negativos que surjam, em vez de perderem tempo com o seu estado emocional, como fazem os jovens adultos.

Em relação aos idosos, o que é muito interessante analisar é que embora experienciem mais eventos negativos, pois têm maior probabilidade de sofrerem de problemas de saúde e terem perdido pessoas mais próximas, são os que tendem a relatar menos acontecimentos de vida stressantes e preocupantes (Chiriboga, 1997).

O que a investigação tem mostrado é que os idosos vão-se desfazendo de estratégias que não resultam tão bem, aprendendo a reconhecer mais facilmente que alguns problemas se resolvem por si próprios e outros que não têm solução. Passam de um coping focado na resolução do problema, como os adultos de meia-idade tipicamente fazem, para um coping mais focado na regulação emocional, tal como os jovens adultos tipicamente fazem.

No entanto, esta regulação emocional é feita de forma mais eficaz, porque há vários eventos que os jovens adultos podem considerar negativos e que os idosos simplesmente não interpretam dessa forma. Então, perante um evento negativo, os idosos podem reinterpretar a situação, de forma a reduzir o impacto do stress, ou entenderem que pode não ter solução, de forma a eliminar este stressor da sua vida.

Um dos motivos que possa estar por trás desta forma lidar com os eventos negativos, é que estão mais conscientes do impacto que o stress lhes faz, e também estão mais conscientes do tempo limitado que a vida lhes oferece, reinterpretando as coisas de outra forma.

Podemos aprender muito na forma como os indivíduos lidam habitualmente com o stress ao longo da vida, principalmente os idosos.

 

Se tivermos em conta que a nossa experiência de stress está ligada fortemente aos nossos processos cognitivos e que podemos mudar estes através de certas estratégias, então temos a responsabilidade de o fazer, de forma a experienciar um maior bem-estar e reduzir o nosso stress.

 

Referências bibliográficas

Arnett, J. J. (2001). Conceptions of the transition to adulthood: Perspectives from adolescence through midlife. Journal of Adult Development, 8(2), 133-143.

Chiriboga, D. A. (1997). Crisis, challenge, and stability in the middle years. In M. E. Lachman & J. B. James (Eds.), Studies on successful midlife development: The John D. and Catherine T. MacArthur Foundation series on mental health and development. Multiple paths of midlife development (pp. 293-322). Chicago, IL, US: University of Chicago Press.

Lição do Filme ‘Inside Out’: A Felicidade não é só Alegria

Conheces o filme de animação Inside Out (‘Divertida Mente’, em Português), feito pela Pixar? Se não conheces, vê assim que puderes!

Este filme foi um êxito de audiências, mas mais do que isso, serviu para mostrar ao público como é que as nossas emoções nos afetam e que todas as emoções são importantes.

A maior parte do filme passa-se dentro da cabeça de uma menina de 11 anos de idade, chamada Riley, onde vemos cinco emoções representadas por personagens de animação. As emoções que aparecem no filme são: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojo.

No início do filme, vemos que a emoção de Alegria, é aquela que comanda a mente da Riley e o seu objetivo é tentar que ela esteja sempre feliz. No entanto, apercebemo-nos que não só é impossível estarmos sempre felizes, como também não é saudável.

A emoção da Tristeza é representada por uma personagem que está sempre em baixo, fala devagar e parece que só existe para atrapalhar. Mas o que vemos durante o filme, principalmente perto do fim, é que todas as emoções têm um propósito, incluindo a Tristeza. Inclusive, vemos que quando a Alegria deixa a Tristeza operar, em conjunto, a mente de Riley, esta parece alcançar uma forma de felicidade mais profunda.

Na sociedade atual, é passada a imagem que devemos estar sempre felizes, sempre alegres.

Existem muitas pessoas em diversas áreas terapêuticas, que passam a mensagem que temos que estar alegres, custe o que custar, e que mesmo que não estejamos alegres, devemos fingir que estamos. Essa forma de estar não podia estar mais errada e o filme Inside Out passa essa mesma mensagem.

Este filme foi acompanhado e aconselhado de perto pelo psicólogo Dacher Keltner, especialista no campo das emoções, de forma a dar suporte científico e fiabilidade ao filme. Então esta não é só uma animação, mas uma lição de vida. E não é só este psicólogo que nos diz que devemos sentir todas as emoções e que a felicidade não se atinge apenas sentindo alegria.

No Journal of Experimental Psychology, investigadores de quatro países e seis instituições, incluindo a Universidade de Yale e a Harvard Business School, descobriram que experienciarmos um leque diverso de emoções pode ser bom para a nossa saúde física e mental.

Para este estudo, os investigadores analisaram a variedade e abundância de emoções positivas e negativas que os seus participantes reportavam.

Esta análise de variedade e abundância de emoções, tem o nome de “emodiversidade”. O primeiro estudo, analisou 35.000 oradores Franceses e descobriu que a emodiversidade está ligada a uma menor depressão. Aliás, as pessoas com elevada emodiversidade tinham menos probabilidades de estarem depressivas do que as pessoas apenas com emoções positivas elevadas.

O segundo estudo ligou a emodiversidade a uma melhor saúde. Com base numa amostra de cerca de 1.300 Belgas, os com maior emodiversidade tomavam menos medicação, gastavam menos dinheiro com a sua saúde e faziam menos visitas aos centros de saúde e hospitais. Eles também tinham uma melhor dieta, faziam mais exercício físico e tinham hábitos mais saudáveis.

As emoções informam-nos a cada instante sobre aquilo que estamos a viver.

Sem emoção não se poderia dizer: “Estou feliz, sinto-me satisfeito, sinto-me triste, estou com ódio, estou aborrecido, estou apaixonado.” Sem emoções seríamos apenas robôs avançando mecanicamente na vida com o olhar vazio e o rosto desprovido de qualquer expressão.

As emoções são múltiplas e variadas e não existem boas ou más emoções.

Existe apenas emoções que são agradáveis, desagradáveis ou neutras.

– As emoções agradáveis assinalam a satisfação das nossas necessidades. São emoções desejáveis que procuramos reencontrar, reproduzir e renovar.

– As emoções desagradáveis fazem-nos sofrer à altura da nossa insatisfação. Geralmente evitamo-las ou recusamo-las.

– As emoções neutras passam despercebidas porque não levantam nenhum problema em particular.

As emoções são embalagens que contêm mensagens que é do nosso interesse ler se queremos continuar a ser felizes ou para evitar que os nossos aborrecimentos piorem. Tal como a febre me diz que alguma coisa não está bem no meu organismo, a fúria indica que um obstáculo que opõe à minha satisfação, a felicidade indica que este é o caminho a seguir e a tristeza permite-me identificar o que me falta. Quer se trate da emoção ou de sensação física, quanto mais depressa agirmos, mais o remédio será simples e ligeiro.

Então, não tenhas medo de sentires emoções negativas como a raiva e a tristeza, o facto de as sentires é saudável. Suprimir essas emoções e mascará-las com alegria é que pode causar danos à tua saúde física e mental.

Claro que temos de ter em atenção à frequência que sentimos essas emoções. Se por um lado é saudável sentirmos emoções negativas, também se torna prejudicial se essas forem as nossas emoções dominantes e se perdurarem. Há situações que duram dias, semanas, meses ou anos e das quais nem sempre se tem bem consciência. É por exemplo uma situação familiar que não se consegue resolver, relações profissionais desprezíveis ou humilhantes, situações financeiras insolúveis. Há também as angústias, as fobias ou as depressões, que independentemente do assunto, mantêm o corpo e o espírito em estado de alerta permanente. É a isso que se chama de emoções de longa duração (ELD). A tensão provocada por uma ELD leva o corpo a estar sempre pronto para o ataque. O organismo está constantemente em estado de guerra.

Por causa da presença contínua dessa emoção, o corpo é de certa forma obrigado a fabricar continuamente adrenalina, cortisona e endorfinas. É uma resposta mecânica. O corpo não pode fazer de outra maneira e continuará a fazê-lo enquanto o perigo estiver presente. Esta mobilização ininterrupta dos recursos é um círculo vicioso esgotante que não dá tréguas ao organismo para descansar e para recuperar forças.

Na ausência da fase final de descanso e de recuperação, o ciclo natural da emoção (carga, tensão, descarga, recuperação) deforma-se e perverte-se, para se tornar o ciclo abortado das emoções de longa duração, que se repete infinitamente, até se esgotar por completo.

A mensagem final então é: é mais saudável experienciar uma panóplia de emoções diversificadas do que tentarmos estar apenas no espectro positivo. No entanto, estarmos no espectro negativo com uma duração exagerada, irá se tornar prejudicial.

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