Mês: Setembro 2020

Foco Quente vs Foco Frio

Existe uma experiência muito conhecida com o nome “O Teste do Marshmallow”, realizada por Walter Mischel.


Nessa experiência, crianças de idade pré-escolar sentavam-se numa sala sem saberem que estavam a ser filmadas. Um investigador colocava um marshmallow à sua frente e dizia que se tinha de ausentar um pouco e que se a criança comesse o marshmallow, não comia mais nenhum. No entanto, se não comesse o marshmallow, receberia 2 marshmallows no total.


Este investigador queria testar a capacidade de resistência ao impulso das crianças, pois uma criança numa sala sem ninguém e com algo tão apetitoso e irresistível como um marshmallow, requer uma força de vontade enorme e uma resistência ao impulso gigante para conseguir aguentar.


Este estudo foi replicado várias vezes e foram testados vários formatos para tentar ver quando é que as crianças conseguiam resistir mais.


Numa dessas experiências, um investigador pediu às crianças para pensarem em características “quentes” do marshmallow como o sabor doce e a outras crianças para pensarem em características “frias”, como o seu formato.


Quando as crianças pensaram em características “frias”, aguentaram cerca de 2x mais do que as crianças que pensaram em características “quentes”.


Isto mostra-nos que não é só um estimulo que nos faz cair mais ou menos em tentação, mas sim o foco que damos às características do estímulo.


O psicólogo cognitivo canadiano Daniel Berlyne, distinguiu entre dois aspetos de qualquer estímulo.

Primeiro, um aspeto ligado à tentação, um estímulo de apetite que tem uma qualidade consumível, excitável e motivacional: faz-te querer comer o marshmallow e quando comes é prazeroso.


O segundo, dá-nos informação sobre traços não emocionais e cognitivos: é redondo, branco, mole.


O efeito que o estímulo tem em nós depende de como o representamos mentalmente.


Quando temos um foco quente, ou seja, quando nos focamos nas características que nos dão mais prazer, automaticamente dispara a reação impulsiva.
Por outro lado, uma representação mais fria, faz-nos focar em aspetos mais abstratos, cognitivos e informativos, sem tornar o estímulo mais tentador.


Estes dois focos estão representados em dois sistemas diferentes no nosso cérebro.


O sistema emocional quente


O sistema emocional quente está representado no sistema límbico, que consiste em estruturas primitivas do cérebro localizadas por baixo do córtex e em cima do tronco cerebral, que foi desenvolvido cedo na evolução. Estas estruturas regulam desejos básicos e emoções essenciais para a sobrevivência, desde medo a raiva, até a fome e sexo.


Este é um sistema reflexivo, simples, emocional, automático e rapidamente dispara o comportamento consumista, impulsivo. Um foco quente na tentação, rapidamente dispara esta resposta.

O stress elevado também ativa este sistema quente. Por isso é que resistimos menos às tentações quando estamos em stress.


O sistema cognitivo frio

Ligado ao sistema quente do cérebro, está o sistema frio, que é cognitivo, complexo, reflexivo e mais lento a ativar. Está centrado principalmente no córtex pré-frontal. Este sistema é crucial para decisões futuras e esforços de autocontrolo. O sistema frio e o sistema quente interagem continuamente e quando um fica mais ativo, o outro torna-se menos ativo.


O córtex pré-frontal é a região mais evoluída do cérebro. Regula os nossos pensamentos, ações e emoções, é o centro da criatividade e imaginação. Permite-nos redirecionar a nossa atenção e mudar estratégias de forma flexível. O autocontrolo está enraizado também no córtex pré-frontal.


Este sistema quente e sistema frio reflete-se em todas as nossas decisões, não só quando tentamos resistir a um doce.


Samuel McClure e os seus colegas fizeram um estudo analisando como as pessoas tomavam decisões.

Utilizaram uma máquina de ressonância magnética funcional (fMRI) para estudar o que acontecia no cérebro quando as pessoas escolhiam entre conseguir recompensas no momento presente ou no futuro.


Foram dados aos participantes escolhas monetárias entre o presente e mais tarde no tempo (receber $10 hoje ou $11 amanhã) ou escolhas de recompensas todas no futuro ($10 num ano ou $11 num ano e um dia).

Os investigadores analisaram os sistemas quentes e frios de cada participante. Enquanto os participantes faziam as suas decisões, os investigadores descobriram que o grau que cada região neuronal ficava acesa, conseguia prever se o indivíduo escolhia uma recompensa imediata ou uma recompensa maior adiada.


A atividade neuronal ocorria na região quente quando os participantes escolhiam entre duas recompensas a curto prazo (um valor agora vs um valor ligeiramente maior amanhã) e nas regiões frias quanto escolhiam entre recompensas futuras.


McClure e os seus colegas confirmaram que existe de facto duas regiões neuronais – uma quente e uma fria – que avalia recompensas imediatas vs adiadas separadamente.


Então, cada vez que tomarmos uma decisão, temos que ponderar qual é o nosso objetivo com essa decisão.


Se for entrar em ação para fazer ou adquirir algo, devemos ter um foco mais quente, pensando mais nas características imediatas ou prazerosas do estímulo.


Por outro lado, se o objetivo for resistir ao impulso ou adiar algo, devemos ter um foco mais frio, pensando mais nas características futuras ou nas características informativas e abstratas do estímulo.

O Modelo ECER

Neste artigo vou-te falar sobre um modelo simples que nos permite entender melhor as nossas reações emocionais.

O modelo denomina-se ECER, que serve de acrónimo para Evento, Cérebro, Emoção e Reação.

Trata-se de um modelo simplificado para conseguir obter uma leitura rápida do que acontece entre os eventos com que nos deparamos no dia a dia e a nossa reação.

O modelo ECER não é um modelo fixo e único, mas sim um modelo flexível e múltiplo. Ao longo do dia, experienciamos centenas de modelos ECER, pois estamos sujeitos a inúmeros estímulos constantemente. Logicamente que não prestamos atenção a todos os estímulos, mas mesmos estímulos não processados conscientemente vão-nos influenciar.

Então como é que funciona?

São 5 passos, cada um correspondente a uma letra do acrónimo ECER.

1. Evento

O primeiro passo deste modelo é o evento. O evento é a situação, a experiência que ocorre no mundo exterior. Por exemplo, o nosso chefe grita connosco, a nossa cara-metade diz que nos ama, um acidente de carro, ver um jogo de futebol, entre outros. Tudo isto são eventos.

Estes eventos são experienciados por nós através dos cinco sentidos: visão, audição, tato, cheiro e paladar.

2. Cérebro Emocional

Após recebermos esta informação do mundo exterior, através dos cinco sentidos, a primeira câmara de compensação é o cérebro emocional.

Este cérebro vai analisar e comparar esta nova informação com toda a informação que temos e que nem sabemos que temos, já que é processada ao nível subconsciente. Dou nota que cada emoção pode ativar redes neurais diferentes, pelo que a indicação de cérebro emocional tem como intuito ter uma leitura simples sobre o processamento da informação.

3. Cérebro Racional

Após experienciarmos o evento e a informação seguir para a primeira fase de processamento através do cérebro emocional, a informação chega ao cérebro racional, que também é conhecido por neocórtex.

Ao contrário do cérebro emocional, que possui toda aquela informação que não sabemos que sabemos, o cérebro racional opera ao nível consciente, tratando a informação que sabemos que sabemos e à qual acedemos de forma consciente.

É neste cérebro que fazemos a análise racional da informação que acabámos de receber, analisamos o passado e o futuro, formulamos teorias e direcionamos o nosso pensamento para a situação que estamos a experienciar.

Mas, atenção, se a informação vier com uma carga emocional muito elevada, o cérebro racional pode nem ser chamado a intervir no processo ou intervir de forma muito reduzida. Quando isto acontece, chama-se «sequestro da amígdala», termo científico cunhado por Daniel Goleman com base no trabalho de Joseph LeDoux, referência mundial no estudo das emoções, nomeadamente da amígdala, utiliza para descrever o processo em que o cérebro emocional «sequestra» o cérebro racional e domina por completo a situação.

Recordas-te de algum momento em que estavas completamente alterado/a emocionalmente, tal como numa discussão, numa luta ou numa situação de perigo? E, nessa situação, fizeste coisas ou disseste coisas de que depois te arrependeste completamente e, até hoje, não acreditas como é que foste capaz de fazer/dizer isso? En¬tão, aí está o «sequestro» em ação!

Este cérebro funciona perfeitamente quando a informação que vem do cérebro emocional não tem carga emocional, mas, quando tem, o cérebro racional pouco ou nada intervém.

4. Emoção

Depois de a informação do evento ser processada pelo cérebro emocional e pelo cérebro racional (este último, dependendo da carga emocional), essa informação chega até nós sob a forma de uma emoção.

Mas nota que existem aqui dois tipos de processamento: em primeiro lugar, a emoção gerada pelo cérebro emocional, pois este, ao processar a informação, comunica-a sob a forma de emoção, sendo esta uma comunicação rápida e inconsciente. E, depois, a comunicação do cérebro racional, esta, podemos dizer, sob a forma de um sentimento.

Por exemplo, imagina que estás a conduzir, atravessa-se um carro na tua frente e quase tens um acidente. De início, podes ficar com raiva (é o reflexo do cérebro emocional) e, posteriormente, após pensares sobre a situação, podes sentir-te irritado.

5. Reação

Em termos de reação interna, o ritmo cardíaco e a pressão arterial aumentam, os músculos ficam mais tensos, a respiração mais rápida. Depois, vem a reação externa, que poderá ser uma postura corporal mais agressiva, como gritar. Agora, quero que, com base neste modelo, olhes para várias situações da tua vida. Vais aperceber-te de que, embora o acontecimento seja idêntico, a reação é diferente de pessoa para pessoa.

Por exemplo, nesta situação da discussão do casal, embora o acontecimento seja o mesmo (a mulher grita com o marido), consoante o tipo de informação que é processado pelo cérebro emocional e pelo cérebro racional, a reação pode ser diferente, certo? O marido tanto pode reagir com calma e não se irritar, como pode gritar e gesticular. Vamos transpor o modelo para o mundo do futebol. Imagina que alguém chega ao pé de ti e diz: «O Benfica é o maior clube do mundo!» Se fores benfiquista, vais sentir uma emoção agradável e a tua reação vai ser positiva, poderás até considerar a pessoa um espetáculo, sorrir e concordar, entre outras reações.

Por outro lado, se fores um aficionado/a de um clube rival, vais sentir uma emoção desagradável e a tua reação vai ser negativa. Podes não gostar da pessoa, gritar, insultar e discordar, entre outras reações. Contudo, podes também ser alguém que não se interessa por futebol e, aí, a tua emoção poderá ser neutra e a tua reação também ser de indiferença. Mal leste a frase que escrevi, e consoante um dos três casos, deves ter experienciado alguma destas emoções. Isto para dizer o quê? Que temos de ter consciência de que, embora o evento possa ser o mesmo, a pessoa ao lado pode ter reações completamente diferentes das nossas.

Geralmente, temos a tendência de julgar rapidamente as pessoas que têm reações opostas às nossas, mas o que não percebemos, muitas vezes, é que as reações diferentes têm que ver com toda a experiência acumulada de vida, crenças e valores, ou seja, o cérebro emocional e o cérebro racional dessas pessoas têm um «filtro» diferente do nosso.

A maior parte das discussões, conflitos e guerras deve-se ao choque de realidades, mas se tivermos em mente como é que processamos a informação do mundo exterior, se tivermos consciência deste modelo, percebemos que cada um tem uma realidade diferente, que o mundo não é igual para todos e que temos de respeitar isso.

Os efeitos da pressão e como geri-la

Estudantes do Seminário Teológico de Princeton foram alvo de uma experiência sem saberem. Numa manhã, disseram ao grupo que teriam de dar uma palestra no outro lado do campus.

Um dos grupos, teria de falar sobre opções de emprego num seminário (Grupo 1), enquanto o outro teria de dar um sermão sobre a parábola do Bom Samaritano, que é a parábola que conta a história do homem que ajuda um estranho na estrada (Grupo 2). Só que não havia nenhum seminário.

Os investigadores queriam ver quem iria parar e ajudar um estudante que estava a precisar de ajuda no meio do caminho. O estudante estava caído numa porta, a gemer e a tossir. A metade de cada grupo foi dito que estavam atrasados para o seminário o à outra metade disseram que estavam com tempo. Então, metade tinha pressão de tempo e a outra metade não.

Poderíamos pensar facilmente que aqueles que iriam dar um sermão sobre a parábola do Bom Samaritano iam parar mais, pois a mensagem que iam passar refletia a situação que estava a acontecer.

Mas será que foi isso que aconteceu? Não.

No final, os estudantes que iam dar o sermão do Bom Samaritano não pararam e ajudaram mais que o outro grupo. A variável que fez a maior diferença foi sentir a pressão do compromisso.

Dos estudantes que estavam com tempo e não sentiram a pressão, 63% parou para ajudar o colega. No grupo que foi dito que estavam atrasados, apenas 10% parou para ajudar! Alguns até passaram por cima do colega enquanto estavam a acelerar.

Então, a pressão tem potencial para alterar o nosso comportamento.

Alguém que tenha boas intenções e que goste ou queira ajudar pessoas, pode ser vítima dum comportamento contrário às suas intenções, se tiver pressionado o suficiente.

O cortisol é uma hormona importante na nossa reação sobre pressão. Um dos fatores principais é que afeta a nossa capacidade de pensar e recuperar a nossa memória. Demasiado cortisol leva à ansiedade, comummente chamada como “ansiedade antecipatória”, que suprime a produção de testosterona.

A testosterona serve para aumentar os níveis de confiança e dar mais vigor ao comportamento. Na ausência de testosterona, o comportamento de aproximação diminui e a nossa atenção fica seletivamente focada nos aspetos negativos da situação, fazendo-nos ver todos os estímulos no ambiente como ameaçadores. Ficamos mais paranoicos e amplificamos o negativo. Para a sobrevivência dos nossos antepassados, era excelente. Para os desafios sociais, nem tanto.

Além do aspeto moral da pressão, o nosso desempenho também é afetado.

Alguns estudos têm vindo a mostrar o que a pressão faz em duas partes do cérebro que alberga dois tipos diferentes de memória: a memória de trabalho e a memória implícita.

A memória de trabalho tem uma capacidade limitada para albergar informação. Aqueles indivíduos que conseguem colocar lá mais informação, têm uma maior vantagem.

Quando a memória de trabalho é interrompida, o nosso desempenho também o é, especialmente se a tarefa que estamos a executar está dependente de pensamento deliberado, tal como resolver um problema matemático ou memorizar informação. Esta memória está situada no córtex pré-frontal.

A memória implícita, por outro lado, não está acessível conscientemente e é responsável por coordenar atividades motoras para desempenhar ações complexas. Está localizada no cerebelo, uma região subcortical.

Mas embora sejam tipos distintos de memórias, também estão interligadas: por exemplo, para tocar piano utilizamos primeiro a memória de trabalho. Mas com mais prática, a complexidade da tarefa torna-se automática, passando para a memória implícita. Quando fica na memória implícita, fazemos sem consciência, fazemos em piloto automático.

Então como é que a pressão afeta estes dois tipos de memória e como é que isso prejudica o nosso desempenho?

Memória de trabalho: Imagina que vais ter uma reunião com um cliente e começas a pensar sobre as reações do cliente e o que ele pode estar a pensar. Esses pensamentos ocupam espaço na nossa memória de trabalho que estamos a utilizar para ir buscar informação. O espaço desaparece e também a informação. Ficamos mais nervosos e atrapalhados, focamos mais no negativo, ocupando mais espaço na memória de trabalho e prejudicando a nossa reunião.

Memória implícita: Imagina que estás a jogar ténis e que jogas bem, de forma automática, sem pensar nos movimentos. No entanto, num jogo importante, começas a pensar na posição das mãos e nas tacadas. De repente, falhas mais. Quando pensamos de forma consciente em comportamentos automáticos, pioramos o nosso desempenho. Nos jogos ouve-se muito quando os atletas falham e estão sob pressão “Está a pensar demasiado”.

Então qual é a solução?

Quando somos inexperientes em algo e temos pouca prática, devemos concentrarmo-nos na mecânica dos movimentos. No entanto, quando já sabemos fazer as coisas bem, não nos devemos concentrar na mecânica.

Atenção ao contraste necessário para gerir a pressão:

• Abrandar o desempenho e focar na mecânica de uma competência bem ensaiada, funciona contra nós.

• Abrandar o desempenho numa tarefa que requeira decisão e competências de resolução de problemas, ajuda-nos.

Outra forma de lidar com a pressão é mudar a forma como avaliamos a situação.

O processo mental que nos ajuda a definir aquilo que está a acontecer a nós ou ao nosso redor é chamado de avaliação cognitiva. É o processo que tentamos fazer sentido do mundo à nossa volta e as situações que enfrentamos.

A pergunta mais importante que deparamos quando estamos sob pressão é: “Eu vejo esta situação como uma crise ou um desafio?”

Uma das mais subtis formas que a pressão influencia o nosso cérebro e comportamento é alterando o nosso pensamento e distorcendo como vemos os eventos.

Muitas pessoas acreditam que como veem os eventos é estático, que não muda. Isto não é verdade.

Como vemos uma situação muda e a pressão é um dos maiores influenciadores para que isso aconteça.

É por isso que posso ter uma má avaliação de um trabalho na 2ª feira e irritar-me, mas na 6ª feira já não ligo tanto. Ou tenho uma multa no fim do dia e fico zangado, mas no dia seguinte não ligo tanto. O que mudou é como avaliei o evento (emoção influencia): “Isto não é justo!”, mudou para “Bem, realmente estava mal-estacionado”.

O facto positivo é que podemos mudar a avaliação de uma situação, permitindo regular a pressão da experiência.

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