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Porque é Que “Tentar Não Pensar” Nos Problemas Não Resulta

Quando estamos a passar por dificuldades, quando algum evento negativo surge ou quando queremos evitar alguma coisa, um conselho muito habitual que ouvimos é: “Tenta não pensar nisso”. Mas quantas vezes é que este conselho surte mesmo efeito? Quase nunca. Parece até que os pensamentos ainda ficam mais fortes.

Parece estranho: quando queremos não pensar em algo, parece que esse algo aparece mais nos nossos pensamentos.

Leo Tolstoy, um grande escritor Russo, conta a história em que um dia o seu irmão mais velho disse-lhe para se sentar num canto da casa até que ele conseguisse deixar de pensar num urso branco. O seu irmão voltou mais tarde e descobriu o pequeno Tolstoy ainda sentado ao canto, paralisado pela sua incapacidade em deixar de pensar num urso branco.

Esta história serviu de base para um grande psicólogo da Universidade de Harvard, Daniel Wegner, fazer uma experiência com os seus estudantes e descobrir porque é que isto acontecia. Wegner deu a seguinte instrução a 17 estudantes “Nos próximos cinco minutos, por favor tentem não pensar em ursos brancos”. E os estudantes não conseguiram, as preocupações habituais sobre os exames, relacionamentos e outros assuntos típicos pareciam irrelevantes durante aquele tempo. O que realmente não parava de vir à mente eram os ursos brancos.

É um pouco irónico que isto aconteça. E também percebemos que dizer a alguém para tentar não pensar nisso, é um mau conselho, porque só vai fazer com que a pessoa pense ainda mais nisso. E todos nós conseguimos-nos rever nessa situação: aquele assunto que nos preocupa ao longo do dia ou quando estamos a tentar adormecer e que não pára de voltar à mente. Nós queremos não pensar nesse assunto, mas ele aparece cada vez mais e com mais força.

Mas porque é que isso acontece?

Daniel Wegner explica que o comando de tentar não pensar em algo, é uma tarefa que se divide em duas partes e que é realizada por duas partes diferentes do cérebro.

Uma das partes tem a função de direccionar a nossa atenção para outra coisa que não seja o pensamento proibido. Ele chama este processo de “operador“. O operador consome muita atenção e energia.

Outra parte do cérebro tem a função de monitorizar tudo aquilo que possamos estar a fazer, sentir e pensar e que esteja relacionado com o pensamento proibido. Ele chama este processo de “monitor“. O monitor está sempre a funcionar e tem energia quase ilimitada.

Normalmente, o operador e o monitor trabalham em paralelo. Se estivermos com os nossos recursos cognitivos em pleno, o monitor é muito útil para nos informar dos perigos que queremos evitar e o operador consegue utilizar a sua energia e atenção para ir ao encontro ao nosso objetivo.

O problema surge principalmente quando os nossos recursos cognitivos estão fracos, tal como quando estamos cansados, com stresse, doentes, com distracções ou outras situações que atrapalhem os nossos recursos cognitivos. Nessas situações, o monitor está muito ativo e o operador não consegue fazer o seu trabalho, sendo bombardeado com aquilo que não queremos pensar, sentir e fazer. E quanto mais o monitor invade a nossa mente com esses pensamentos proibidos, menos controlo temos sobre esses pensamentos proibidos.

No caso dos estudantes que não podiam pensar num urso branco, como foi dada uma instrução clara para não pensar no urso branco, o sistema monitor dos estudantes estava continuadamente a informar que não podiam pensar no urso branco. Mesmo quando o sistema operador tentava mudar a atenção, o monitor voltava a informar a mente dos estudantes que não podiam mesmo pensar no urso branco, e ao fazê-lo, voltavam a pensar no urso branco. E quanto mais tempo passava, mais cansado ficava o sistema operador e mais forte ficava o sistema monitor.

Tentar não pensar em algo é uma estratégia contraproducente e um mau conselho, pois esgota ainda mais os nossos recursos cognitivos e o pensamento proibido fica mais forte. Uma solução? Deixar os pensamentos fluirem sem tentar travá-los e tentar direccionar a mente para outro objetivo. Não dizer ao monitor que aquele é um pensamento proibido, deixar que o pensamento venha quando quiser vir. É um conselho estranho, dizer que podemos pensar naquilo que não queremos pensar. Mas é uma boa forma de impedir que esses pensamentos se tornem mais fortes e mais intensos.

 

 

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